Ônibus (2) – Vale transporte

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Depois de cinco dias pegando o ônibus nos mesmos horários, tive certeza que não veria mais aquela mulher, que destoava dos outros passageiros pelo colorido das roupas, pela beleza instigante e pelas curiosas circunstâncias em que a encontrei.

Passadas duas semanas, Mateus, o chefe da nossa empreiteira, agenciou a mim e mais três operários para três meses de trabalho na construção de um grande prédio no centro da cidade. Com outros quatro pedreiros, estávamos encarregados de colocar o piso em oito andares.

A partir de então foi necessário pegar a condução mais cedo, às cinco e quarenta e cinco da manhã.

No primeiro dia, quase perco a hora, não encontro minhas botinas, derrubo café no colo e dou uma topada numa quina da mesa. Ao sair à rua, percebo que o fiz antes mesmo do sol e ainda assim preciso correr para não perder o ônibus.

A caminho do ponto, reviro minha memória, com honestidade, tentando decidir se esse dia que mal começou é o pior da minha vida. Resolvo que está entre os dez piores. Logo que entro no ônibus, a data ganha destaque na lista infame, pois noto não ter trazido o vale transporte. Tive que usar o dinheiro do almoço, já que não preparei comida. “Será um longo dia”, pensei.

Caminhando para o fundo do ônibus vejo alguém cuja postura e face me eram familiares. O cabelo estava mais curto, mas com certeza era ela, destacando-se pela cor e delicadeza.

Dessa vez pude reparar em alguns detalhes: trazia três anéis, mas nenhuma aliança. Tinha também um cordão de ouro no pescoço, cujos pingentes eram dois bonequinhos, um menino e uma menina. Ou tratava-se de uma grande fã do conto “João e Maria”, ou deveria ser mãe de dois pequenos.

Como matar a curiosidade sem parecer um maníaco? Ou sem demonstrar o fato de ser um maníaco? Será que um maníaco cogita sê-lo? A mulher levanta-se e aperta a campainha. Desce em um bairro residencial, o primeiro antes do centro. Dez minutos depois é minha vez. Atravesso a rua e subo ao quinto andar do que será em breve um imponente edifício.

Em pouco tempo estamos em oito homens, todos de uniforme e capacete azuis. Exceto por Luiz, que o tem branco. Ele será nosso encarregado, responsável por fazer a comunicação entre os operários e os engenheiros, controlar a demanda por materiais e distribuir as tarefas. Acredito que ele foi o escolhido por ser o mais velho, uma vez que Valter também se encontra conosco e tem muito mais conhecimento técnico. Também veio Vladimir, o ex-segurança.

Os outros quatro operários que integram a equipe nos são desconhecidos, mas percebi que se tratam de um tio, dois sobrinhos e um amigo. Luiz diz a eles o que fazer.

O dia corre bem. Luiz me empresta dinheiro para almoçar. Ao fim do expediente pego o ônibus e ao olhar em volta percebo que manterei determinada curiosidade por pelo menos mais doze horas.

Na manhã seguinte, chego ao ponto de ônibus dez minutos adiantado. Com meu vale transporte, e uma roupa mais bonita. Não tenho intenções com a mulher, apenas não quero assustá-la. Quero saber sua história e no máximo lograr companhia para as viagens diárias.

Ao avistá-la percebo que o banco ao seu lado está vazio. “Se importa que eu me sente aqui?”, “claro que não, será bom ter companhia…”.

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9 comentários sobre “Ônibus (2) – Vale transporte

  1. Acabo de conhecer o blog e já estou perdidamente apaixonado pelo seu modo de escrever. Do fundo do meu coração, te desejo muita sorte na conversa com a moça perfumada de vestido bonito, ela merece! Abraço

    Curtido por 1 pessoa

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