Ônibus (1) – A namorada e os operários

Sempre fui ciclista, mesmo depois de comprar um carro. A combinação de bicicleta e acostamento te dá bons minutos de reflexão, e é o oposto ao automóvel, que relaxa o corpo, mas mantém a mente tensa e alerta. O fato é que essa semana, última do mês, busquei alguma alternativa para ir ao trabalho, já que tive problema mecânico na bicicleta e não consegui abastecer o carro. Caminhei então ao ponto de ônibus, o qual as sete da manhã te dá uma ótima sensação de coletividade. No bairro em que fica nossa sede existem muitas fábricas e este ônibus transporta basicamente operários. Neste trajeto em específico não é raro ver pessoas sem dedos. Estes operários em geral são muito quietos e fechados, exceto quando encontram algum colega. Quando isso acontece abrem largos sorrisos e brincam, como se fosse parte do protocolo do divertido e estranho grupo ao qual fazem parte. Na segunda-feira havia no ônibus uma figura cujo vestido florido destoava dos uniformes azuis, verdes e cinzas. Ela estava sentada e eu não pude saber se era alta. Porém a beleza dela era visceral. Algo que não se podia tirar dela. Era intrigante o fato de que apesar de estar arrumada, parecia tê-lo feito há várias horas atrás. Seus cabelos eram negros e cacheados, a maquiagem já não tinha importância, e seu aroma era mais de perfume do que de sabonete.
Passei os quarenta minutos da viagem criando a história dela em minha cabeça, tomando cuidado para não parecer obsessivo ao olhá-la.
Chegando à empresa, nossa equipe se deslocou a uma construção e durante o dia por vezes minha mente era visitada por aquela imagem pitoresca. Meu sentimento era curiosidade, acima de qualquer outro.
Pouco depois das seis da tarde, novamente eu estava no ponto de ônibus. Entro na imensa lata, pago a passagem e ao olhar para o fundo do veículo, qual não foi minha surpresa e perplexidade ao ver a mesma figura deslocada. Desta vez, não consegui disfarçar meu olhar e ela claramente percebeu minha surpresa. Cheguei mais perto, mas não tão perto, e percebi que ela me olhava de forma dissimulada pelo reflexo da janela. Eu bem que tentei ser discreto, mas não havia como: ela estava com outro vestido, dessa vez, azul. Sua maquiagem tão perfeita que nem parecia existir. Seus cabelos tinham um brilho que eu não soube identificar a origem. Confabulei uma porção de hipóteses, decidi que o mais provável é que ela fosse recepcionista no terceiro turno em uma das fábricas do bairro. Não fazia o menor sentido. Ninguém trabalha doze horas como recepcionista, ainda mais no terceiro turno. E para que seria preciso uma recepcionista de madrugada? Talvez ela fosse empregada doméstica e mudou de roupa na casa de sua patroa. Talvez trabalho não estivesse relacionado à questão: Ela foi a visitar uma amiga, emprestou um vestido e voltou para casa de onde mais tarde iria a uma festa. Ou foi à casa do namorado, passaram o dia juntos e lá com certeza ela tem roupas guardadas. Resolvi que essa era a hipótese mais provável.
Uma namorada entre os operários.
Ao sair do ônibus dei uma última boa olhada para esta cena, porque, se eu estivesse certo, não voltaria a vê-la.

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7 comentários sobre “Ônibus (1) – A namorada e os operários

  1. É ilário a parte “uma ótima sensação de coletividade” e “a grande lata”, muito bom.
    Agora me tira uma dúvida você é servente de obra mesmo ou é só uma brincadeira? Ou você é realmente um servente de obra de arte?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Prá você ver que até no drama existe humor. rsrs.
      “Servente de obra de arte” talvez seja um pouco presunçoso, é que a arte realmente me atrai e eu queria escrever um pouco mais sobre o assunto, mas só tenho me motivado a falar da minha vida (presunção e narcisismo?).
      E tirando sua dúvida, sim, sou um operário. Inclusive tem muita gente me perguntando isso, rsrs.
      Obrigado pela visita!
      Abraço!

      Curtido por 3 pessoas

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