A moça, o palhaço e a cerveja

Era terça, a tarde era chuvosa deixando-nos sem condições de trabalhar. Dois de meus colegas foram
dispensados. Outros três reuniram-se para tomar chimarrão e conversar, basicamente sobre como os automóveis
antigos eram melhores que os atuais. Por um momento me envolvi no assunto, mas eu tinha algo fixo na mente. A
moça de óculos estaria ali aquela tarde, e eu estava muito confuso.
A confusão devia-se à uma mistura de sentimentos com os quais eu nunca soube lidar. A ansiedade por vê-la com seu jeito de menina que a muito custo tenta passar a imagem de mulher bem resolvida e independente (ou seria o contrário?). A ânsia de ouvir sua doce voz, que com a mais suave alteração de tom é capaz de te fazer rir ou chorar. Tudo isso misturando-se com a ideia de que é bastante aceitável ser ignorado por ela. De me sentir feio e menos humano por exercer uma atividade que não preza pelo intelecto. Que sou apenas um par de braços para levantar peso e um par de ouvidos para receber ordens.
Quando na cabeça se tem a noção de estar na presença de alguém cujos desejos são mais relevantes que os seus próprios, dividindo espaço com a certeza de que não se pode julgar tão sublime criatura pelo crime de se relacionar apenas com pessoas proeminentes como ela mesma.
Fui ao vestiário e por uns vinte e cinco minutos ocupei-me de olhar ao espelho, tentando decidir se sou digno de pena ou digno de estar com ela. Decidi que auto piedade não me levaria a lugar algum.
Por exclusão, resolvi fazer algo.
Se eu substituísse o uniforme de brim azul por calça jeans e camisa polo. Se eu trocasse a botina por um sapato esportivo. Se minhas mãos não estivessem cinzas. Se meu cabelo seco e sujo estivesse brilhoso e penteado. Se ela se deparasse com uma conversa entre eu e Mateus sobre cinema, música ou astronomia. Se eu não a visse entrar e continuasse a falar, dando tempo para ela perceber que eu poderia participar das conversas que ela tinha com Mateus sobre assuntos divertidos, e assim aos poucos começasse a gostar de mim.
Em menos de uma hora, a moça de óculos chegaria, falaria uma saudação tímida e geral, entraria no escritório com Mateus me deixando novamente com o amargo sentimento de ser um inútil e não ter feito o suficiente.
No meu armário, não havia uma calça jeans. Fui ao trabalho com meu uniforme. Era azul, não faria tanta diferença. Também não haviam sapatos esportivos. Decidi que eu teria o par de botinas mais limpo de toda a cidade. Havia uma camisa polo, preta, sem o botão de baixo. Ficando aberta, me dava um ar que era quase exatamente o oposto ao que eu queria ter. Depois de tomar banho, gastei uns quinze minutos penteando o cabelo para o lado, para enfim constatar que parecia um palhaço. Baguncei o cabelo e testei a nova aparência combinada com um sorriso: tão ridícula quanto a primeira.
Comecei me iludir com a hipótese de que alguém que se aproxima tanto de uma divindade, deve ter sentimentos divinos e não irá se afeiçoar por banalidades como a aparência. Caprichar na conversa com Mateus seria minha grande jogada. Fui a seu escritório e comecei a falar sobre o tempo. Em cinco minutos escuto um tímido “oi, oi” geral e vejo passar pela porta a mulher que eu imaginava estar do outro lado da mesa, no caso de eu encenar um comercial de margarina. Cumprimenta Mateus e me olha diretamente nos olhos por um momento eterno. Com um sorriso cuja causa eu não sabia e adorava. Me diz “olá”. Não sei quanto tempo depois respondo com “Oi, como está você?”, dito separando bem as sílabas, tomando cuidado para não gaguejar, sem tomar cuidado em parecer um andróide. Sua resposta ficou implícita e ela logo se ocupou em abrir sua pasta e trocar papéis com Mateus.
Ali estávamos em três. Um ouvindo com atenção o que dizia sua visitante. Esta mostrando números impressos e falando sobre uma reunião comercial de mais cedo. E o terceiro, um desajustado. Apreciando cada expressão de sua musa. Ouvindo o suave som que saía de sua pequena boca, sem assimilar duas palavras consecutivas. Este terceiro, cada vez mais deslocado, imaginava que o primeiro pediria sua opinião a qualquer momento e ele passaria por bobo por não saber o que falar. Ou a segunda olharia repentinamente para ele flagrando seu olhar de criança pobre desejando o brinquedo caro.
Não sei se passaram quinze minutos ou duas horas. Sei que ela fechou a pasta, levantou e disse “Tchau Mateus”, olhou brevemente para mim e disse “tchau”.
Mais uma vez, foi embora.
Naquele momento eu quis uma cerveja. Um copo grande de cerveja, para tirar o gosto amargo de minha boca.

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16 comentários sobre “A moça, o palhaço e a cerveja

    1. Rsrs, obrigado pelo elogio! Nesse calor, qualquer bebida gelada desce bem. A cerveja é para dar a ideia de que mesmo amarga, seria doce em relação ao gosto que ficou na boca.
      Agradeço por estar sempre visitando meu blog, todas as vezes com muita simpatia!

      Curtido por 1 pessoa

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