O churrasco da discórdia

PostChurrasco

Era sexta-feira, duas da tarde. O trabalho ia bem e já estávamos nos acabamentos do sobrado. Mateus, nosso chefe, estava satisfeito com a obra, a qual estava para acabar bem antes do previsto. Eu me dedicava ao piso de um cômodo inferior, ajudando Valter, quando chegou a notícia que animara a todos. Como trabalhamos rápido e com esmero Mateus decidiu que nos serviria um churrasco, caso concluíssemos toda a demanda até o dia seguinte, sábado. Entramos em consenso que todos trabalharíamos até as vinte e duas horas e no sábado só restaria a limpeza a fazer. Mateus saiu, voltando quando já escurecera e sua satisfação era evidente. Luiz se prontificou a ajudar com os preparativos do dia seguinte enquanto Nereidas, o mais inconveniente do grupo, brincou fazendo exigências absurdas para a confraternização que se aproximava. Alguns deram risos amarelos por educação.
Chegada a noite de sábado, fomos ao churrasco a ser realizado em nossa sede mesmo. Mateus foi generoso, comprou muita carne, frango e até aperitivos. Quando fui tomar uma ducha o pessoal beliscava alguma coisa e bebia cerveja, naquele momento a unica coisa que me passava pela cabeça era se a moça de óculos passaria por ali. Para entregar uns papéis. Falar com Mateus. Talvez ficar uns minutos no churrasco. Quem sabe assim eu teria um pretexto pra falar com ela. Pensei em perguntar ao chefe se ela passaria por ali. Pensei que ele me acharia ridículo por cogitar alguma aproximação com tão refinada moça. Me dei conta que era sábado. Ela não viria.
Saí do banho e notei quão infundadas eram minhas pretensões. Uma primeira conversa num churrasco onde só haveriam homens. O mais provável é que ela sequer nos agraciaria com sua presença, ainda que por alguns minutos. De qualquer modo, era sábado. Eu devia aproveitar a comida e bebida e, claro, a companhia de meus colegas. Peguei um prato com farofa e linguiça quando Mateus falou que não trouxera o sal grosso e pediu-me para acompanhá-lo ao mercado. Apesar de estar com muita fome, entrei no carro com ele e partimos.
Ao chegar novamente à sede, a cena que presenciamos era grotesca: Valter segurava agressivamente o colarinho de Nereidas com sua mão esquerda e com a direita lhe ameaçava o rosto com o indicador em riste. Ordenava que se calasse e que não falasse novamente sobre “isso”. O mais curioso é que ninguém se apresentou para separar os dois homens, exceto Luiz, que caminhava calmamente na direção deles. Colocou sem pressa a mão sobre o ombro de Valter, dizendo “deixa Valter, larga ele…”, com tanta tranquilidade que chegava a preocupar. Não houve redução na ferocidade do homem que possuia as dimensões de um urso e sacudia Nereidas como um frágil boneco de pano. Vendo tamanha indiferença dos outros homens, corri em direção ao agressor para convencê-lo a absolver o pequeno sujeito, que por mais impertinente que fosse, era nossa colega. Quando fiz menção de tocar Valter, senti uma forte pancada em meu peito, desferida pelo mesmo braço direito usado para educar Nereidas. Ele não soltou o homem. Ele sequer desviou o olhar de sua vítima enquanto me dava tremendo golpe. Apesar de eu ter a mesma altura de Valter, tenho pouco mais da metade de seu peso, e o sujeito, que decerto recebera uma ofensa tão grande quanto ele próprio, me fez cair a cinco metros de distância, sentindo falta de ar e dor.
Luiz deu dois passos para trás, os demais homens arregalaram os olhos, como se somente agora tivessem um motivo para estarem espantados. Uma voz muito grave foi ouvida: “VALTER!!!”. Todos voltaram o olhar para Mateus, que acabara de usar uma impostação e um tom de voz que ninguém jamais o vira usar. Valter parou, sua testa franzida, sua boca disforme. Soltou Nereidas cujos pés finalmente reencontraram o chão. Por um instante, os dois, gigante e boneco de pano, se mantiveram parados frente a frente, ambos cabisbaixos. Sem levantar a cabeça, Valter deslocou-se ainda ofegante à porta que dava para o pequeno pátio aos fundos da empresa. Eu ainda estava deitado, quando Mateus pegou Nereidas pelo braço, encaminhou-o a seu carro dizendo que o levaria até em casa…

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2 comentários sobre “O churrasco da discórdia

    1. Gosto de narrativas. Tenho uma facilidade enorme em viajar na história narrada. Sempre fui assim desde criança. Meu esposo brinca que devo ter cuidado com o tipo de leitura que vou fazer.

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