Luiz, o motorista

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Um de meus colegas, um senhor com seus sessenta anos, trabalhou por toda a vida como motorista, sendo que há três se aposentou e começou a trabalhar aqui. Bem jovem dirigia caminhão, levando produtos industrializados pelo Brasil. Em determinado momento, entrou para uma viação, onde passou a dirigir os ônibus de linha daquela cidade. Mais adiante, tornou-se motorista de excursão. Foi a tarefa que exerceu por mais tempo em sua vida, a que ele mais gostava e a que lhe proporcionava mais orgulho. Não demorou para que suas viagens começassem a ser mais longas e até internacionais, pela América Latina afora. Não eram muitos os motoristas que cruzavam o país do sul ao nordeste, esta tarefa era delegada aos melhores. De fato Luiz era um desses. Atencioso com os passageiros, criou vínculos com estes, tornando-se seu motorista favorito, sendo requisitado pelos mesmos quando a viagem era de grande importância. Conhecia as rodovias como ninguém, em uma época em que não haviam os aparelhos eletrônicos que tanto ajudam os motoristas hoje em dia. Com grande perícia ao volante, nunca trouxe avarias aos veículos em décadas de trabalho. Seus colegas menos experientes o telefonavam buscando conselhos, quando estavam prestes a sair para uma viagem mais longa. Exercia sua função com primazia e era reconhecido por isso.
Já tinha mais de cinquenta anos quando as viagens delegadas a ele começaram a diminuir. O motivo pode ser um dos que ele me disse, ou um dos que eu imagino, e que ele não admitiria. Talvez fosse a inveja de seus colegas, que incitaram desavenças, tornando-o mal visto pela chefia ou talvez fosse seu temperamento um tanto orgulhoso, de alguém que busca reconhecimento, pelo menos, já que o dinheiro não era tanto. Talvez fosse a empresa evitando de dar-lhe poder perante os clientes por alguma questão fiscal maluca ou talvez sua atitude ao volante, acentuada pelo tempo, que o transformava em outra pessoa, bem menos paciente e bem mais dono da razão, numa tentativa absurda de mostrar seu conhecimento sobre as questões do trânsito. O fato é que a empresa que antes se orgulhava de ter tão exemplar funcionário, agora não aceitava seu comportamento. E Luiz que antes se orgulhava de seu uniforme e função, estava a falar mal da empresa pelos cantos. Parecia um casamento de anos desmoronando.
Juntou toda a documentação e depois de algum tempo e esforço se aposentou, já que começara a trabalhar registrado com menos de dezoito anos. Com ajuda de advogados, entrou numa briga por direitos que ele não soube me explicar muito bem quais eram. Até agora não obteve resultado. E como a aposentadoria não é nada demais, começou a trabalhar como pedreiro, e é meu colega.
Tornou-se um bom amigo, na verdade. Às vezes combinamos de não trazer almoço e vamos em seu Chevette almoçar em algum restaurante barato. A pessoa que dirige o Chevrolet não é Luiz. Pelo menos não o mesmo que levanta paredes comigo. O Luiz que guia o antigo automóvel levando-nos comer, frisa todos os erros cometidos pelos outros motoristas, fica extremamente irritado com imprudência, não tem pudor em xingar qualquer um que, aos seus critérios, não está tendo uma boa conduta ao volante. Fala repetidamente do que faria em cada situação, se estivesse ao volante de um ônibus, ou como ele chama, “o carro grande”.
De quando descemos do veículo, por todo o almoço, até o momento de voltar, ele volta a ser o Luiz normal, sujeito simples, risonho, até mesmo generoso. Quando o televisor do restaurante está ligado, noticiando qualquer coisa, não é raro ouvi-lo dizer que já esteve naquele lugar, a característica de suas rodovias e os pontos turísticos que conheceu em sua passagem. Não se nota presunção em sua voz, apenas vontade de compartilhar a história. As vezes essas histórias são repetidas, assim como são repetidos os discursos explicando o que fez em determinada situação ao volante, de como foi difícil passar por algum lugar com o ônibus ou do socorro prestado à um passageiro ou vítima de acidente. Acho que ele realmente não percebe que a história já fora contada.
No final das contas, com o peso do tempo, sádico algoz, ao se olhar pra traz e ver uma única e imutável história, e ao se olhar pra frente e ver os momentos derradeiros dessa vida, que dificilmente terminará muito melhor do que está agora, é então que fica claro que tudo que se busca é um pouco de reconhecimento.
Todos queremos dinheiro, amores e conquistas. Mas como “nenhum homem é uma ilha”, e como a gente “só existe no outro”, talvez o dinheiro e os bens materiais tomassem um lugar secundário na estante de troféus de um homem, se lhe fosse dito com frequência pelo patrão, familiares e amigos por exemplo: “que orgulho tenho que dirija tão bem este ônibus, para mim, você sempre será o melhor”.
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6 comentários sobre “Luiz, o motorista

  1. Você escreve muito bem. Consigo recriar a cena no meu imaginário. Parabéns. Estou seguindo seu blog. adorei de verdade!!! Há, obrigada por se inscrever no meu blog eu capricho e organizo. Sucesso sempre…

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  2. A riqueza de detalhes em sua escrita, nos possibilita imaginar toda a cena, como se estivesse acontecendo aqui mesmo, na nossa frente…
    Gosto muito de ler textos assim!
    Parabéns!
    Vou navegar mais um pouco por aqui para ler os outros textos… 😉
    Abraços!

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