Valter, o assassino

Logo que entrei na empresa, há 10 meses, percebi piadas recorrentes com determinado colega. Era Valter, um sujeito com quase um e noventa de altura e estrutura física grotesca. Deveria pesar uns cento e quarenta quilos. Certa vez discutiu com o nosso colega Luiz a respeito do governador do estado, nada sério, falavam por falar, ao que alguém incita que não era auspicioso discutir com Valter, devido a algo que fez no passado. Nem todos riram da piada. Por certo Valter não riu. Em outra ocasião nosso colega Vladimir, que gastava a maior parte dos minutos de descanso falando sobre seu antigo emprego, como segurança de empresa, estava, vejam só, falando sobre a vez que precisou imobilizar sozinho um baderneiro com uns quarenta quilos e uns vinte centímetros a mais que ele. Ao que alguém faz outro infeliz comentário: “está provado que com a quantia certa de homens é possível colocar até mesmo o grandalhão do Valter na gaiola”. Novamente ninguém riu. Nem mesmo quem fez a piada, percebendo a gafe. O que me deixava mais intrigado. Ele ouvia as piadas e não se queixava, porém, também não ria delas. Vez ou outra um sorriso amarelo. Confesso que aquilo me perturbava um pouco. Se ele tinha matado alguém, talvez não fosse muito apropriado fazer graça com o caso. Nunca senti liberdade para questioná-lo, ele estava sempre focado no trabalho e pouco falava. Entretanto, parecia, assim como eu, ter uma relação de proximidade com Mateus. Por muitas vezes enquanto eu utilizava do computador da empresa após o expediente, Valter ficava e conversava com Mateus, às vezes por horas. Certo dia ouvi a conversa. Valter tinha um tipo de fichário nas mãos, com o qual mostrava desenhos para Mateus. Falava-lhe sobre o porquê de construir uma escada de determinada forma, discursava sobre pontos de apoio e sobre área ocupada. Também falou sobre design e segurança. Mateus perguntou a Valter se podia manter a pasta consigo até o final da semana, ao que Valter assentiu com cortesia. Passei pelos dois, me despedi e encaminhei-me para casa, com esse pensamento de perplexidade carregado de preconceito. Que história teria este camarada para não estar aplicando todo esse conhecimento que parecia ter? Foi o assassinato? A possível estadia na cadeia? A única coisa que sei é que o sujeito de fisionomia e história obscuras tinha uma história parecida em muitos pontos com a minha própria.

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