Arquivo mensal: agosto 2014

A moça de óculos

A moça de óculos tem estado aqui na empresa três vezes por semana nos últimos quatro meses, às seis e meia da tarde, horário em que eu e os outros voltamos à sede para trocar de roupa e pegar nossas coisas. A moça de óculos limita-se a conversar com Mateus, dentro do escritório. Sempre carrega papeis e pastas. Veste-se como as elegantes senhoritas dos filmes europeus atuais. A moça de óculos quando vai embora despede-se de Mateus com um “até mais” e diz um “tchau” geral para nós, sempre acompanhado de um radiante sorriso. Por algumas vezes cruzei o olhar com ela, não tenho certeza de como me comportei no momento. Sempre procuro ter firmeza no olhar, mas a moça de óculos tem alguma coisa que te faz sentir como um menino. Parece bem instruída e algumas vezes já ouvi ela comentando sobre livros e seriados de TV com o Mateus.
A moça de óculos tem a voz mais bonita que já ouvi.

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The Wrestler

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The Wrestler tem a fórmula do sucesso, um filme de luta com redenção. Porém os clichês não são tão evidentes e o filme é muito bem construído. Como todo bom filme desse tipo, temos um lutador com problemas pessoais (problema financeiro, está doente e é proibido de lutar e ainda tem problema de relacionamento com a filha), a típica situação que parece não poder piorar. E como não podia deixar de ser, ele terá sua última grande luta, que é o ápice do filme e é justamente ai que se acabam os clichês, pois o filme tem um belo final. Além disso a trilha tem algumas músicas clássicas e para quem gosta de violência gratuita, tem uma cena de uns 5 minutos difícil de assistir, envolvendo um ringue, dois lutadores, um pistola de grampos e arame farpado. A mensagem que fica é sobre correr atras dos sonhos e enfrentar as adversidades. Sem dúvida um grande filme!

Valter, o assassino

Logo que entrei na empresa, há 10 meses, percebi piadas recorrentes com determinado colega. Era Valter, um sujeito com quase um e noventa de altura e estrutura física grotesca. Deveria pesar uns cento e quarenta quilos. Certa vez discutiu com o nosso colega Luiz a respeito do governador do estado, nada sério, falavam por falar, ao que alguém incita que não era auspicioso discutir com Valter, devido a algo que fez no passado. Nem todos riram da piada. Por certo Valter não riu. Em outra ocasião nosso colega Vladimir, que gastava a maior parte dos minutos de descanso falando sobre seu antigo emprego, como segurança de empresa, estava, vejam só, falando sobre a vez que precisou imobilizar sozinho um baderneiro com uns quarenta quilos e uns vinte centímetros a mais que ele. Ao que alguém faz outro infeliz comentário: “está provado que com a quantia certa de homens é possível colocar até mesmo o grandalhão do Valter na gaiola”. Novamente ninguém riu. Nem mesmo quem fez a piada, percebendo a gafe. O que me deixava mais intrigado. Ele ouvia as piadas e não se queixava, porém, também não ria delas. Vez ou outra um sorriso amarelo. Confesso que aquilo me perturbava um pouco. Se ele tinha matado alguém, talvez não fosse muito apropriado fazer graça com o caso. Nunca senti liberdade para questioná-lo, ele estava sempre focado no trabalho e pouco falava. Entretanto, parecia, assim como eu, ter uma relação de proximidade com Mateus. Por muitas vezes enquanto eu utilizava do computador da empresa após o expediente, Valter ficava e conversava com Mateus, às vezes por horas. Certo dia ouvi a conversa. Valter tinha um tipo de fichário nas mãos, com o qual mostrava desenhos para Mateus. Falava-lhe sobre o porquê de construir uma escada de determinada forma, discursava sobre pontos de apoio e sobre área ocupada. Também falou sobre design e segurança. Mateus perguntou a Valter se podia manter a pasta consigo até o final da semana, ao que Valter assentiu com cortesia. Passei pelos dois, me despedi e encaminhei-me para casa, com esse pensamento de perplexidade carregado de preconceito. Que história teria este camarada para não estar aplicando todo esse conhecimento que parecia ter? Foi o assassinato? A possível estadia na cadeia? A única coisa que sei é que o sujeito de fisionomia e história obscuras tinha uma história parecida em muitos pontos com a minha própria.

Chico Buarque e as lágrimas

Existem na internet algumas listas das músicas que mais fazem os homens chorar. É obvio que não devemos ser sexistas a ponto de ignorar os sentimentos masculinos, mas este não é um assunto tratado com tanta naturalidade. Chico Buarque tem algumas das letras mais bonitas do nosso idioma, isso é quase inquestionável. E é dele uma música que realmente me leva ao pranto. Uma música bastante improvável, podemos dizer. “Cotidiano”. É difícil nas vezes em que lembro da música, principalmente quando vou comer minha marmita. Principalmente quando ouço a frase “depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijão”. É algo impulsivo. Como um sentimento que tento esconder e que encontra especialmente nessa frase a palavra passe pra vir à tona e mostrar que existe. Talvez isso explique porque o assunto da conversa na hora do almoço seja quase sempre futebol e as mulheres. Embora todos já desistimos de ser jogadores e embora ainda nutrimos a certeza hipócrita de que com esforço poderíamos ter qualquer mulher.

Mad Max

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Mad Max é um filme australiano de 1979, se passa em um futuro que já ficou no passado e nem sequer aconteceu. Tem cenas muito expressionistas e o fato de não existir tanto recurso para efeitos especiais digitais faz com que as muitas cenas de perseguição na estrada tornem-se ainda mais emocionantes. Basicamente um grupo de motoqueiros bandidos começa a caçar o protagonista Max, por causa de uma perseguição que acabou na morte de um dos bandoleiros. Aos poucos o protagonista vai perdendo as pessoas próximas a ele, culminando então, nos 15 minutos finais de vingança.

Com uma excelente fotografia, e não tão famoso quanto a própria continuação, Mad Max é daqueles filmes para assistir sem se preocupar muito, apenas aproveitando de toda ação que o filme traz.

Padroeira

Há alguns dias eu e meus colegas trabalhávamos na construção de um sobrado, bem próximo da nossa sede. Eu e mais dois colegas levamos todo o tempo da manhã para levantar uma parede que quase chegava aos três metros de altura. Por vezes o assunto futebol surgia, intercalado por momentos de trabalho mecânico em entorpecente silêncio. Algumas vezes o assunto era o gosto culinário de cada um de nós e muitas outras, o antigo trabalho de segurança de um de meus colegas. No entanto havia uma palavra que não saía de minha cabeça e me intrigava desde que acordei: padroeira. O dia anterior foi o dia da padroeira de nossa cidade, provavelmente isso fez com que eu acordasse com a palavra na cabeça. E o quão grande é o paradoxo encontrado nessa palavra. Um grande título feminino, derivando de uma forte palavra masculina. Talvez por ouvirmos frequentemente a palavra não nos damos conta disso. Ainda não refleti muito sobre as questões sexistas, mas é bem obvio como muitas das organizações sociais ainda tratam com tanta diferença os dois gêneros, a ponto de criar a palavra “padroeira”. Muitos são os exemplos parecidos no cotidiano, não nos damos conta porque estamos acostumados. Para talvez exemplificar como a palavra é contraditória, perceba por alguns instantes a estranheza que a hipotética palavra “madroeiro” causa aos ouvidos. Também é de meu conhecimento que a lógica da linguagem não é precisa como a da matemática, ou seja, não se pode buscar esse tipo de senso em algo que evolui como e com as sociedades, sem base lógica. No entanto não posso deixar de registrar o sentimento de perplexidade que me causa tal palavra.

Rocky

“Rocky: um lutador” no Brasil, é um filme incrível. Tem a história de amor, conquista e toda aquela questão de superação e redenção que foi tantas vezes referenciada ao longo dos anos. E tem uma das cenas mais depressivas de que eu me lembro: Rocky sabe que vai ter a chance de lutar com o campeão mundial e Mickey, ex-lutador que agora treina os jovens talentos vai a casa de Rocky pedir a chance de ser seu técnico. Mickey sempre desprezara Rocky (poucas cenas antes descarregou uma série de ofensas a ele). Então, nesta pequena e humilde casa são vistas duas figuras que fracassaram em seus sonhos, ambos querendo abraçar uma provável última oportunidade de sucesso. Rocky então, em uma explosão de raiva diz tudo que está em seu coração, sobre como a ajuda de Mickey deveria ter vindo antes e sobre seu próprio fracasso como lutador. Cena capaz de fazer chorar a qualquer um que realmente sonhou com algo e não conseguiu realizar. O resto da história todos conhecem, mas há algo que sempre me intrigou neste filme. Quando indagado por Adrian qual o motivo de alguém ser lutador, Rocky diz que é por ser idiota. Ele repete isso algumas vezes, porém, alguém que tem consciência de ser idiota, não é tão idiota assim.
Rocky de 1976 é um dos filmes mais inspiradores já feitos, realmente uma obra-prima.