Ônibus (2) – Vale transporte

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Depois de cinco dias pegando o ônibus nos mesmos horários, tive certeza que não veria mais aquela mulher, que destoava dos outros passageiros pelo colorido das roupas, pela beleza instigante e pelas curiosas circunstâncias em que a encontrei.

Passadas duas semanas, Mateus, o chefe da nossa empreiteira, agenciou a mim e mais três operários para três meses de trabalho na construção de um grande prédio no centro da cidade. Com outros quatro pedreiros, estávamos encarregados de colocar o piso em oito andares.

A partir de então foi necessário pegar a condução mais cedo, às cinco e quarenta e cinco da manhã.

No primeiro dia, quase perco a hora, não encontro minhas botinas, derrubo café no colo e dou uma topada numa quina da mesa. Ao sair à rua, percebo que o fiz antes mesmo do sol e ainda assim preciso correr para não perder o ônibus.

A caminho do ponto, reviro minha memória, com honestidade, tentando decidir se esse dia que mal começou é o pior da minha vida. Resolvo que está entre os dez piores. Logo que entro no ônibus, a data ganha destaque na lista infame, pois noto não ter trazido o vale transporte. Tive que usar o dinheiro do almoço, já que não preparei comida. “Será um longo dia”, pensei.

Caminhando para o fundo do ônibus vejo alguém cuja postura e face me eram familiares. O cabelo estava mais curto, mas com certeza era ela, destacando-se pela cor e delicadeza.

Dessa vez pude reparar em alguns detalhes: trazia três anéis, mas nenhuma aliança. Tinha também um cordão de ouro no pescoço, cujos pingentes eram dois bonequinhos, um menino e uma menina. Ou tratava-se de uma grande fã do conto “João e Maria”, ou deveria ser mãe de dois pequenos.

Como matar a curiosidade sem parecer um maníaco? Ou sem demonstrar o fato de ser um maníaco? Será que um maníaco cogita sê-lo? A mulher levanta-se e aperta a campainha. Desce em um bairro residencial, o primeiro antes do centro. Dez minutos depois é minha vez. Atravesso a rua e subo ao quinto andar do que será em breve um imponente edifício.

Em pouco tempo estamos em oito homens, todos de uniforme e capacete azuis. Exceto por Luiz, que o tem branco. Ele será nosso encarregado, responsável por fazer a comunicação entre os operários e os engenheiros, controlar a demanda por materiais e distribuir as tarefas. Acredito que ele foi o escolhido por ser o mais velho, uma vez que Valter também se encontra conosco e tem muito mais conhecimento técnico. Também veio Vladimir, o ex-segurança.

Os outros quatro operários que integram a equipe nos são desconhecidos, mas percebi que se tratam de um tio, dois sobrinhos e um amigo. Luiz diz a eles o que fazer.

O dia corre bem. Luiz me empresta dinheiro para almoçar. Ao fim do expediente pego o ônibus e ao olhar em volta percebo que manterei determinada curiosidade por pelo menos mais doze horas.

Na manhã seguinte, chego ao ponto de ônibus dez minutos adiantado. Com meu vale transporte, e uma roupa mais bonita. Não tenho intenções com a mulher, apenas não quero assustá-la. Quero saber sua história e no máximo lograr companhia para as viagens diárias.

Ao avistá-la percebo que o banco ao seu lado está vazio. “Se importa que eu me sente aqui?”, “claro que não, será bom ter companhia…”.

O amor de um cachorro

Enquanto eu escrevo estas linhas ele está ali, deitado. De vez em quando levanta a cabeça e olha pra mim. Ainda não dei-lhe um nome, chamo-o de “cachorro”. Na verdade não consigo pensar num nome melhor.
Há uma semana eu estava a comer na rua quando ele apareceu, visivelmente faminto, deitou ao meu lado e ficou a me olhar. Não me pediu nada, preferiu apelar à minha compaixão com um olhar de tristeza. Uma estratégia inocente, atualmente.
Por duas noites ele dormiu em frente ao portão da minha casa, só no terceiro dia o convidei a entrar. Não sou especialista em psicologia animal, mas só pode ser alegria o que tal criatura tenta expressar com pulos e lambidas toda vez que chego do trabalho. Algum humano fanático dirá que é puro interesse. Pode ser. Interesse em me deixar feliz, porque não é possível que dá centésima vez que o chamo sem dar-lhe nenhum petisco, ele venha com o mesmo entusiasmo e falta de jeito, saltando e bagunçando.
Como eu queria ser tão feliz apenas por ter comida, um lugar para dormir e alguém para esperar no fim do dia.

Ônibus (1) – A namorada e os operários

Sempre fui ciclista, mesmo depois de comprar um carro. A combinação de bicicleta e acostamento te dá bons minutos de reflexão, e é o oposto ao automóvel, que relaxa o corpo, mas mantém a mente tensa e alerta. O fato é que essa semana, última do mês, busquei alguma alternativa para ir ao trabalho, já que tive problema mecânico na bicicleta e não consegui abastecer o carro. Caminhei então ao ponto de ônibus, o qual as sete da manhã te dá uma ótima sensação de coletividade. No bairro em que fica nossa sede existem muitas fábricas e este ônibus transporta basicamente operários. Neste trajeto em específico não é raro ver pessoas sem dedos. Estes operários em geral são muito quietos e fechados, exceto quando encontram algum colega. Quando isso acontece abrem largos sorrisos e brincam, como se fosse parte do protocolo do divertido e estranho grupo ao qual fazem parte. Na segunda-feira havia no ônibus uma figura cujo vestido florido destoava dos uniformes azuis, verdes e cinzas. Ela estava sentada e eu não pude saber se era alta. Porém a beleza dela era visceral. Algo que não se podia tirar dela. Era intrigante o fato de que apesar de estar arrumada, parecia tê-lo feito há várias horas atrás. Seus cabelos eram negros e cacheados, a maquiagem já não tinha importância, e seu aroma era mais de perfume do que de sabonete.
Passei os quarenta minutos da viagem criando a história dela em minha cabeça, tomando cuidado para não parecer obsessivo ao olhá-la.
Chegando à empresa, nossa equipe se deslocou a uma construção e durante o dia por vezes minha mente era visitada por aquela imagem pitoresca. Meu sentimento era curiosidade, acima de qualquer outro.
Pouco depois das seis da tarde, novamente eu estava no ponto de ônibus. Entro na imensa lata, pago a passagem e ao olhar para o fundo do veículo, qual não foi minha surpresa e perplexidade ao ver a mesma figura deslocada. Desta vez, não consegui disfarçar meu olhar e ela claramente percebeu minha surpresa. Cheguei mais perto, mas não tão perto, e percebi que ela me olhava de forma dissimulada pelo reflexo da janela. Eu bem que tentei ser discreto, mas não havia como: ela estava com outro vestido, dessa vez, azul. Sua maquiagem tão perfeita que nem parecia existir. Seus cabelos tinham um brilho que eu não soube identificar a origem. Confabulei uma porção de hipóteses, decidi que o mais provável é que ela fosse recepcionista no terceiro turno em uma das fábricas do bairro. Não fazia o menor sentido. Ninguém trabalha doze horas como recepcionista, ainda mais no terceiro turno. E para que seria preciso uma recepcionista de madrugada? Talvez ela fosse empregada doméstica e mudou de roupa na casa de sua patroa. Talvez trabalho não estivesse relacionado à questão: Ela foi a visitar uma amiga, emprestou um vestido e voltou para casa de onde mais tarde iria a uma festa. Ou foi à casa do namorado, passaram o dia juntos e lá com certeza ela tem roupas guardadas. Resolvi que essa era a hipótese mais provável.
Uma namorada entre os operários.
Ao sair do ônibus dei uma última boa olhada para esta cena, porque, se eu estivesse certo, não voltaria a vê-la.

A moça, o palhaço e a cerveja

Era terça, a tarde era chuvosa deixando-nos sem condições de trabalhar. Dois de meus colegas foram
dispensados. Outros três reuniram-se para tomar chimarrão e conversar, basicamente sobre como os automóveis
antigos eram melhores que os atuais. Por um momento me envolvi no assunto, mas eu tinha algo fixo na mente. A
moça de óculos estaria ali aquela tarde, e eu estava muito confuso.
A confusão devia-se à uma mistura de sentimentos com os quais eu nunca soube lidar. A ansiedade por vê-la com seu jeito de menina que a muito custo tenta passar a imagem de mulher bem resolvida e independente (ou seria o contrário?). A ânsia de ouvir sua doce voz, que com a mais suave alteração de tom é capaz de te fazer rir ou chorar. Tudo isso misturando-se com a ideia de que é bastante aceitável ser ignorado por ela. De me sentir feio e menos humano por exercer uma atividade que não preza pelo intelecto. Que sou apenas um par de braços para levantar peso e um par de ouvidos para receber ordens.
Quando na cabeça se tem a noção de estar na presença de alguém cujos desejos são mais relevantes que os seus próprios, dividindo espaço com a certeza de que não se pode julgar tão sublime criatura pelo crime de se relacionar apenas com pessoas proeminentes como ela mesma.
Fui ao vestiário e por uns vinte e cinco minutos ocupei-me de olhar ao espelho, tentando decidir se sou digno de pena ou digno de estar com ela. Decidi que auto piedade não me levaria a lugar algum.
Por exclusão, resolvi fazer algo.
Se eu substituísse o uniforme de brim azul por calça jeans e camisa polo. Se eu trocasse a botina por um sapato esportivo. Se minhas mãos não estivessem cinzas. Se meu cabelo seco e sujo estivesse brilhoso e penteado. Se ela se deparasse com uma conversa entre eu e Mateus sobre cinema, música ou astronomia. Se eu não a visse entrar e continuasse a falar, dando tempo para ela perceber que eu poderia participar das conversas que ela tinha com Mateus sobre assuntos divertidos, e assim aos poucos começasse a gostar de mim.
Em menos de uma hora, a moça de óculos chegaria, falaria uma saudação tímida e geral, entraria no escritório com Mateus me deixando novamente com o amargo sentimento de ser um inútil e não ter feito o suficiente.
No meu armário, não havia uma calça jeans. Fui ao trabalho com meu uniforme. Era azul, não faria tanta diferença. Também não haviam sapatos esportivos. Decidi que eu teria o par de botinas mais limpo de toda a cidade. Havia uma camisa polo, preta, sem o botão de baixo. Ficando aberta, me dava um ar que era quase exatamente o oposto ao que eu queria ter. Depois de tomar banho, gastei uns quinze minutos penteando o cabelo para o lado, para enfim constatar que parecia um palhaço. Baguncei o cabelo e testei a nova aparência combinada com um sorriso: tão ridícula quanto a primeira.
Comecei me iludir com a hipótese de que alguém que se aproxima tanto de uma divindade, deve ter sentimentos divinos e não irá se afeiçoar por banalidades como a aparência. Caprichar na conversa com Mateus seria minha grande jogada. Fui a seu escritório e comecei a falar sobre o tempo. Em cinco minutos escuto um tímido “oi, oi” geral e vejo passar pela porta a mulher que eu imaginava estar do outro lado da mesa, no caso de eu encenar um comercial de margarina. Cumprimenta Mateus e me olha diretamente nos olhos por um momento eterno. Com um sorriso cuja causa eu não sabia e adorava. Me diz “olá”. Não sei quanto tempo depois respondo com “Oi, como está você?”, dito separando bem as sílabas, tomando cuidado para não gaguejar, sem tomar cuidado em parecer um andróide. Sua resposta ficou implícita e ela logo se ocupou em abrir sua pasta e trocar papéis com Mateus.
Ali estávamos em três. Um ouvindo com atenção o que dizia sua visitante. Esta mostrando números impressos e falando sobre uma reunião comercial de mais cedo. E o terceiro, um desajustado. Apreciando cada expressão de sua musa. Ouvindo o suave som que saía de sua pequena boca, sem assimilar duas palavras consecutivas. Este terceiro, cada vez mais deslocado, imaginava que o primeiro pediria sua opinião a qualquer momento e ele passaria por bobo por não saber o que falar. Ou a segunda olharia repentinamente para ele flagrando seu olhar de criança pobre desejando o brinquedo caro.
Não sei se passaram quinze minutos ou duas horas. Sei que ela fechou a pasta, levantou e disse “Tchau Mateus”, olhou brevemente para mim e disse “tchau”.
Mais uma vez, foi embora.
Naquele momento eu quis uma cerveja. Um copo grande de cerveja, para tirar o gosto amargo de minha boca.

O churrasco da discórdia

PostChurrasco

Era sexta-feira, duas da tarde. O trabalho ia bem e já estávamos nos acabamentos do sobrado. Mateus, nosso chefe, estava satisfeito com a obra, a qual estava para acabar bem antes do previsto. Eu me dedicava ao piso de um cômodo inferior, ajudando Valter, quando chegou a notícia que animara a todos. Como trabalhamos rápido e com esmero Mateus decidiu que nos serviria um churrasco, caso concluíssemos toda a demanda até o dia seguinte, sábado. Entramos em consenso que todos trabalharíamos até as vinte e duas horas e no sábado só restaria a limpeza a fazer. Mateus saiu, voltando quando já escurecera e sua satisfação era evidente. Luiz se prontificou a ajudar com os preparativos do dia seguinte enquanto Nereidas, o mais inconveniente do grupo, brincou fazendo exigências absurdas para a confraternização que se aproximava. Alguns deram risos amarelos por educação.
Chegada a noite de sábado, fomos ao churrasco a ser realizado em nossa sede mesmo. Mateus foi generoso, comprou muita carne, frango e até aperitivos. Quando fui tomar uma ducha o pessoal beliscava alguma coisa e bebia cerveja, naquele momento a unica coisa que me passava pela cabeça era se a moça de óculos passaria por ali. Para entregar uns papéis. Falar com Mateus. Talvez ficar uns minutos no churrasco. Quem sabe assim eu teria um pretexto pra falar com ela. Pensei em perguntar ao chefe se ela passaria por ali. Pensei que ele me acharia ridículo por cogitar alguma aproximação com tão refinada moça. Me dei conta que era sábado. Ela não viria.
Saí do banho e notei quão infundadas eram minhas pretensões. Uma primeira conversa num churrasco onde só haveriam homens. O mais provável é que ela sequer nos agraciaria com sua presença, ainda que por alguns minutos. De qualquer modo, era sábado. Eu devia aproveitar a comida e bebida e, claro, a companhia de meus colegas. Peguei um prato com farofa e linguiça quando Mateus falou que não trouxera o sal grosso e pediu-me para acompanhá-lo ao mercado. Apesar de estar com muita fome, entrei no carro com ele e partimos.
Ao chegar novamente à sede, a cena que presenciamos era grotesca: Valter segurava agressivamente o colarinho de Nereidas com sua mão esquerda e com a direita lhe ameaçava o rosto com o indicador em riste. Ordenava que se calasse e que não falasse novamente sobre “isso”. O mais curioso é que ninguém se apresentou para separar os dois homens, exceto Luiz, que caminhava calmamente na direção deles. Colocou sem pressa a mão sobre o ombro de Valter, dizendo “deixa Valter, larga ele…”, com tanta tranquilidade que chegava a preocupar. Não houve redução na ferocidade do homem que possuia as dimensões de um urso e sacudia Nereidas como um frágil boneco de pano. Vendo tamanha indiferença dos outros homens, corri em direção ao agressor para convencê-lo a absolver o pequeno sujeito, que por mais impertinente que fosse, era nossa colega. Quando fiz menção de tocar Valter, senti uma forte pancada em meu peito, desferida pelo mesmo braço direito usado para educar Nereidas. Ele não soltou o homem. Ele sequer desviou o olhar de sua vítima enquanto me dava tremendo golpe. Apesar de eu ter a mesma altura de Valter, tenho pouco mais da metade de seu peso, e o sujeito, que decerto recebera uma ofensa tão grande quanto ele próprio, me fez cair a cinco metros de distância, sentindo falta de ar e dor.
Luiz deu dois passos para trás, os demais homens arregalaram os olhos, como se somente agora tivessem um motivo para estarem espantados. Uma voz muito grave foi ouvida: “VALTER!!!”. Todos voltaram o olhar para Mateus, que acabara de usar uma impostação e um tom de voz que ninguém jamais o vira usar. Valter parou, sua testa franzida, sua boca disforme. Soltou Nereidas cujos pés finalmente reencontraram o chão. Por um instante, os dois, gigante e boneco de pano, se mantiveram parados frente a frente, ambos cabisbaixos. Sem levantar a cabeça, Valter deslocou-se ainda ofegante à porta que dava para o pequeno pátio aos fundos da empresa. Eu ainda estava deitado, quando Mateus pegou Nereidas pelo braço, encaminhou-o a seu carro dizendo que o levaria até em casa…

Luiz, o motorista

postLuiz
Um de meus colegas, um senhor com seus sessenta anos, trabalhou por toda a vida como motorista, sendo que há três se aposentou e começou a trabalhar aqui. Bem jovem dirigia caminhão, levando produtos industrializados pelo Brasil. Em determinado momento, entrou para uma viação, onde passou a dirigir os ônibus de linha daquela cidade. Mais adiante, tornou-se motorista de excursão. Foi a tarefa que exerceu por mais tempo em sua vida, a que ele mais gostava e a que lhe proporcionava mais orgulho. Não demorou para que suas viagens começassem a ser mais longas e até internacionais, pela América Latina afora. Não eram muitos os motoristas que cruzavam o país do sul ao nordeste, esta tarefa era delegada aos melhores. De fato Luiz era um desses. Atencioso com os passageiros, criou vínculos com estes, tornando-se seu motorista favorito, sendo requisitado pelos mesmos quando a viagem era de grande importância. Conhecia as rodovias como ninguém, em uma época em que não haviam os aparelhos eletrônicos que tanto ajudam os motoristas hoje em dia. Com grande perícia ao volante, nunca trouxe avarias aos veículos em décadas de trabalho. Seus colegas menos experientes o telefonavam buscando conselhos, quando estavam prestes a sair para uma viagem mais longa. Exercia sua função com primazia e era reconhecido por isso.
Já tinha mais de cinquenta anos quando as viagens delegadas a ele começaram a diminuir. O motivo pode ser um dos que ele me disse, ou um dos que eu imagino, e que ele não admitiria. Talvez fosse a inveja de seus colegas, que incitaram desavenças, tornando-o mal visto pela chefia ou talvez fosse seu temperamento um tanto orgulhoso, de alguém que busca reconhecimento, pelo menos, já que o dinheiro não era tanto. Talvez fosse a empresa evitando de dar-lhe poder perante os clientes por alguma questão fiscal maluca ou talvez sua atitude ao volante, acentuada pelo tempo, que o transformava em outra pessoa, bem menos paciente e bem mais dono da razão, numa tentativa absurda de mostrar seu conhecimento sobre as questões do trânsito. O fato é que a empresa que antes se orgulhava de ter tão exemplar funcionário, agora não aceitava seu comportamento. E Luiz que antes se orgulhava de seu uniforme e função, estava a falar mal da empresa pelos cantos. Parecia um casamento de anos desmoronando.
Juntou toda a documentação e depois de algum tempo e esforço se aposentou, já que começara a trabalhar registrado com menos de dezoito anos. Com ajuda de advogados, entrou numa briga por direitos que ele não soube me explicar muito bem quais eram. Até agora não obteve resultado. E como a aposentadoria não é nada demais, começou a trabalhar como pedreiro, e é meu colega.
Tornou-se um bom amigo, na verdade. Às vezes combinamos de não trazer almoço e vamos em seu Chevette almoçar em algum restaurante barato. A pessoa que dirige o Chevrolet não é Luiz. Pelo menos não o mesmo que levanta paredes comigo. O Luiz que guia o antigo automóvel levando-nos comer, frisa todos os erros cometidos pelos outros motoristas, fica extremamente irritado com imprudência, não tem pudor em xingar qualquer um que, aos seus critérios, não está tendo uma boa conduta ao volante. Fala repetidamente do que faria em cada situação, se estivesse ao volante de um ônibus, ou como ele chama, “o carro grande”.
De quando descemos do veículo, por todo o almoço, até o momento de voltar, ele volta a ser o Luiz normal, sujeito simples, risonho, até mesmo generoso. Quando o televisor do restaurante está ligado, noticiando qualquer coisa, não é raro ouvi-lo dizer que já esteve naquele lugar, a característica de suas rodovias e os pontos turísticos que conheceu em sua passagem. Não se nota presunção em sua voz, apenas vontade de compartilhar a história. As vezes essas histórias são repetidas, assim como são repetidos os discursos explicando o que fez em determinada situação ao volante, de como foi difícil passar por algum lugar com o ônibus ou do socorro prestado à um passageiro ou vítima de acidente. Acho que ele realmente não percebe que a história já fora contada.
No final das contas, com o peso do tempo, sádico algoz, ao se olhar pra traz e ver uma única e imutável história, e ao se olhar pra frente e ver os momentos derradeiros dessa vida, que dificilmente terminará muito melhor do que está agora, é então que fica claro que tudo que se busca é um pouco de reconhecimento.
Todos queremos dinheiro, amores e conquistas. Mas como “nenhum homem é uma ilha”, e como a gente “só existe no outro”, talvez o dinheiro e os bens materiais tomassem um lugar secundário na estante de troféus de um homem, se lhe fosse dito com frequência pelo patrão, familiares e amigos por exemplo: “que orgulho tenho que dirija tão bem este ônibus, para mim, você sempre será o melhor”.

A metamorfose

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A metamorfose é uma novela (descobri isso na internet, honestamente não sei a diferença entre novela e conto) de Franz Kafka, escrita há mais de 100 anos. Um homem acorda e se vê transformado em um inseto gigante, sem mais explicações. A história trata um pouco sobre as sensações experimentadas pelo protagonista em seu novo corpo (que provavelmente seja o ponto que mais inspira curiosidade e agonia aos leitores), mas o foco da história são as relações do personagem com seu emprego e seus familiares. Estranhamente o ele mostra tolerância com sua nova situação, ficando mais preocupado com a possibilidade de sofrer sansões de seu chefe, do que com o absurdo que lhe ocorre. O chefe, inclusive, é extremamente abusivo. Por causa de 15 minutos de atraso, vai à casa de seu funcionário cobrar-lhe explicações. Demora até descobrirem que o sujeito, que está trancado no quarto, já não tem forma humana, embora sua consciência seja a mesma. Apenas sua mãe levanta a possibilidade de estar acontecendo algo sério com o filho. Então, com muito esforço, a criatura de casco duro e muitas patinhas consegue rodar a chave da porta e exibir sua nova forma à família e chefe: repugnante e ininteligível.
Uma leitura mais metafórica pode concluir que a preocupação prioritária do protagonista pelo seu trabalho, ao invés de pela sua situação descabida, representa justamente um problema social real, onde a colocação da pessoa e o sucesso financeiro parecem ter predileção em relação ao conteúdo intelectual da mesma, o que faz com que coloquemos nossa saúde e sonhos em segundo plano.
O que se passa adiante deve ser experimentado através da leitura total da história, que leva pouco tempo. Quem mergulhar nesta experiência irá ter pensamentos e sensações que dificilmente teria, a menos que tenha um dia acordado na forma de um inseto gigante.

Os sete

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Suponha que alguém lhe indique um livro escrito por um brasileiro sobre vampiros portugueses que são despachados para o Brasil há 500 anos? Eu não leria. Assim como grande parte dos meus compatriotas, eu tinha este preconceito com obras fantásticas escritas por brasileiros, ainda mais situadas no próprio Brasil. Porém há alguns anos li este livro, “Os sete”, de André Vianco, sem saber do que se tratava e o que aconteceu foi simples: um preconceito a menos. A história me amarrou pra valer, as reviravoltas são na medida certa, deixando o enredo crível e ao mesmo tempo imprevisível.
Algo que dá uma imersão maior ainda e só pode ser proporcionado por uma obra assim: as referências usadas durante o livro. Cidades, pessoas, estabelecimentos e características brasileiras são apresentadas a todo momento te deixando ainda mais preso a trama sobrenatural proposta pelo autor.
Algo que quase chega a ser um alívio cômico (mas não chega), são os vampiros tentando entender como funcionam as tecnologias atuais, como a eletricidade e o motor a explosão. As criaturas são mostradas como curiosas e até bastante humanas.
Sempre fui mais da ficção científica, mas este livro, preciso dizer, te faz acreditar no sobrenatural.

A moça de óculos

A moça de óculos tem estado aqui na empresa três vezes por semana nos últimos quatro meses, às seis e meia da tarde, horário em que eu e os outros voltamos à sede para trocar de roupa e pegar nossas coisas. A moça de óculos limita-se a conversar com Mateus, dentro do escritório. Sempre carrega papeis e pastas. Veste-se como as elegantes senhoritas dos filmes europeus atuais. A moça de óculos quando vai embora despede-se de Mateus com um “até mais” e diz um “tchau” geral para nós, sempre acompanhado de um radiante sorriso. Por algumas vezes cruzei o olhar com ela, não tenho certeza de como me comportei no momento. Sempre procuro ter firmeza no olhar, mas a moça de óculos tem alguma coisa que te faz sentir como um menino. Parece bem instruída e algumas vezes já ouvi ela comentando sobre livros e seriados de TV com o Mateus.
A moça de óculos tem a voz mais bonita que já ouvi.

The Wrestler

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The Wrestler tem a fórmula do sucesso, um filme de luta com redenção. Porém os clichês não são tão evidentes e o filme é muito bem construído. Como todo bom filme desse tipo, temos um lutador com problemas pessoais (problema financeiro, está doente e é proibido de lutar e ainda tem problema de relacionamento com a filha), a típica situação que parece não poder piorar. E como não podia deixar de ser, ele terá sua última grande luta, que é o ápice do filme e é justamente ai que se acabam os clichês, pois o filme tem um belo final. Além disso a trilha tem algumas músicas clássicas e para quem gosta de violência gratuita, tem uma cena de uns 5 minutos difícil de assistir, envolvendo um ringue, dois lutadores, um pistola de grampos e arame farpado. A mensagem que fica é sobre correr atras dos sonhos e enfrentar as adversidades. Sem dúvida um grande filme!